terça-feira, 1 de outubro de 2024

Sobre alguns medos

 Quando eu era criança um dos meus maiores medos era perder minha essência: deixar de me deslumbrar com o mundo, com as pequenas coisas e os novos acordes de uma música que ainda não conheço bem. Endurecer, ser aquele tipo de adulto que a gente vê direto, mecanizado e sempre num tom - ainda que, por dentro, tudo lhe gritasse, dor ou alegria.

Na realidade vejo pessoas assim, e talvez nem sejam desse jeito. Endurecidas. Com um sorriso perene no rosto que não ressoa nos olhos, ao contrário. Respondem sempre "tudo ótimo" quando lhes é perguntado como vão. (Mas isso aqui não é sobre eles.)

Quando eu era adolescente, pensava que ter 30 anos era ser velho, e, quando eu tivesse essa idade, estaria realizada profissionalmente, formada em arquitetura, teria feito uma especialização em urbanismo ou restauração, de preferência na Europa ou no Canadá. Só que eu, aos trinta, estava terminando uma faculdade de Artes e tendo o segundo filho. Nesse ínterim fui do céu ao inferno algumas vezes, mudei de cidade e passei a morar com o pai dos meus filhos. Meus planos de adolescente ficaram definitivamente pra trás.

Ter filhos - e era algo que eu também queria desde menina, mudou muitas coisas na minha vida e me fez tomar rumos diferentes dos que talvez tivesse tomado, sem eles. Por exemplo, fez com que eu me esforçasse sempre a ser diferente dos exemplos de pais que tive, os quais estavam basicamente mais perdidos que cego em tiroteio. Enfim, meus filhos foram e são uma âncora nessa história de estar vivendo.

(Às vezes pesa.)

E isso de não perder a essência, o frescor, a humanidade, é uma tentativa diária, às vezes consciente, outras orgânica. Nem sempre fácil, nem sempre compreendida pelos outros (ah, os outros). Mas é bonito ter isso comigo. Fico feliz de continuar tentando, e algumas vezes conseguir.

E quanto aos medos... São muitos, sim, mas não menores que a vontade de seguir.




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