Sísifo era um sujeito (um rei, e bem atrevido prepotente, como pessoas que detém o poder costumam ser) que ofendeu gravemente os deuses gregos e, não sei se vocês sabem, eles nunca deixam barato. Pra dar uma lição no Sísifo, condenaram ele a rolar uma grande pedra acima de um grande monte. E, como as vinganças dos deuses gregos eram muito bem urdidas, essa pedra, sempre, quando chegava no alto do monte, rolava pra baixo e assim ia, indefinidamente. (Um dia ia acabar, porque Sísifo não era imortal, mas, tirando isso, foi um castigo tão sem sentido quanto severo, que com certeza intimidou muitos humanos da época.) Qual foi o erro de Sísifo? Ele tentou enganar a Morte e Hades, o deus do submundo, perturbando a ordem cósmica, só isso.
Sisifo, de Tiziano Vecellio, 1548-1549.Mas apesar de estarmos vivendo um momento onde o que se vê são dirigentes prepotentes e insanos empurrando o mundo para um conflito cada vez mais amplo e que pode ter proporções inimagináveis, o texto não é só é sobre isso.
(O macro e o micro.)
É também sobre disputa de egos a nível pessoal, e é também sobre micro fissuras internas que teimam em reabrir. É também sobre a inutilidade de certas ações e o quanto somos Sísifos e nossos próprios deuses travando lutas intermináveis e inúteis todos os dias e a falta de sentido disso. E se é preciso haver algum sentido. Ou é só o fluir das coisas. O fruir das coisas, ruins e boas. E o uso do E, ao invés do OU foi intencional. E o metabolizar, o transformar o metamorfosear-se, se for preciso.
Reizinhos prepotentes desafiam deuses inexistentes, ou existentes, sem pensar em nada além de seus intere$$es, manutenção de poder, a vida não vale um cêntimo. Vida humana mesmo, a animal e vegetal já não importava nada faz tempo.
(O macro e o micro.)
Reproduzimos conflitos e relações de poder entre nós e os nossos, e entre os seres que nos rodeiam, num ciclo indefinido e infinito enquanto durar. Somos tão desumanos quanto os Sísifos contemporâneos. Ou talvez sejamos deuses.
Quando comecei a escrever, realmente não pretendia ir por esse caminho, minha ideia era bem diferente, embora igualmente soturna. Mas parece que ao escrever tudo foi se encaminhando para o que se deu aqui, e que também representa o que venho pensando e maturando.
[Fiquei pensando sobre essa tal de ordem cósmica (pesquisei, porque tinha esquecido detalhes do mito). E se existir uma ordem cósmica? Supostamente deve existir, porque o universo tem resistido bravamente à presença do homem na Terra. Daí lembrei da música do Raul Seixas, de que nós somos a pulga do cachorro, e que basta ele se sacudir que a pulga some e o cachorro continua... Quam somos nós na ordem das coisas?]
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