Lembrei (novamente) do poema, em seguida da música, parece que fica difícil imaginar um sem o outro, ou na voz de outro/a cantor.
E fala de um estado de ser, a um mesmo tempo, tão pleno, ao mesmo tempo tão cônscio da finitude deste sentimento, desse estado e de si mesmo. De uma maneira feliz (porque o instante existe e a minha vida está completa) e ao mesmo tempo cética, que possivelmente só poetas, artistas e loucos são capazes de experimentar - afinal, (um dia sei que estarei mudo, mais nada)E, não importa se desmorono, ou edifico, o que vale é que canto, (e a canção é tudo).
Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
CECÍLIA MEIRELES
em “Viagem”. Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.
em “Viagem”. Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.
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