sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Guiomar

 Escrevi um poema para minha avó materna,  inspirado num poema de uma outra pessoa, para a avó dela. Daí percebi/pensei que não tenho nenhuma foto de minha avó, pelo menos ao que me lembre, e pelo menos do jeito que me lembro dela. E meio que herdei uma parte do acervo de fotos antigas de família, que considero uma das coisas mais lindas que tenho - mesmo não cuidando tão bem quanto deveria. 

Lembro-me muito bem de minha avó, ainda que ela tenha morrido quando eu ainda era criança. Era pequena - embora maior do que eu, uma criança pequena e franzina. Vovó era nem magra nem gorda, tinha rosto arredondado e cabelos longos, ondulados e meio grisalhos, mas não muito. Os cabelos ficavam normalmente presos num coque, isto quando eu não decidia fazer vários penteados diferentes nela, e ela deixava. Ela e minha mãe transmitiram as histórias de nossa família, as mesmas histórias que eu contei, ou busquei contar a meus filhos. Minha mãe dizia que foi graças à minha avó que eu sobrevivi, porque nascí meio fraca, e ela me levava todos os dias na praia, bem cedinho, pra tomar sol. Usava aqueles vestidos de vó de antigamente, e chinelos. 

Era tranquila, mais das vezes, mas de vez em quando tinha uns rompantes de irritação; lembro bem de um dia em que estávamos vendo tv juntas e, num anúncio de sabão em pó, a menina (atriz criança) desmaia com o brilho das roupas, sendo amparada pelo menino (ator criança). ela ficou Muito Brava! Dizia, o que é isso, que falta de vergonha! Era o espírito dos novos tempos fustigando os brios dela... Não sei com quantos anos morreu, sei que foi de algo como câncer, mas estava velha para os parâmetros da época. Nunca a esqueci, foi uma das presenças mais inportantes do meu início de existência. 

Eu precisava colocar o poema manuscrito:

P.S.: Antes do poema... Procurei o significado do nome - O nome Guiomar, de origem germânica e também bretã, significa "gloriosa" ou "amazona digna". 💖💖💖




quinta-feira, 7 de agosto de 2025

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Pentimentos - et ça existe?

 

                                                                                (estudo de Michelângelo)

"À medida que o tempo passa, a tinta velha em uma tela se torna transparente. Quando isto acontece, é possível ver, em alguns quadros, as linhas originais: através de um vestido de mulher surge uma árvore, uma criança dá lugar a um cachorro e um grande barco não está mais em mar aberto. Isto se chama pentimento, porque o pintor se arrependeu, mudou de idéia. Talvez fosse possível dizer que a antiga concepção, substituída por uma imagem posterior, é uma forma de ver, e ver de novo mais tarde. " Lilian Hellman, na abertura do livro Pentimento.
Extraído de : http://clubedeleituraaguaevento.blogspot.com/



Palavras remetem a idéias, mais ainda se são desconhecidas ou pouco usuais. Mesmo desvelado o mistério, o significado do termo, este ainda oscila e se mostra impregnado pelo sentido que demos a ele.
Pentimentos seriam pensamentos encharcados de sentimento?
Ou um sentimento pensado, pesado, milimétrico? Talvez um meio termo entre ambos, interseção de dois conjuntos...Há coerência nessa união.
Um mundos com mais pentimentos do que simples pensamentos talvez fosse mais humano.
No entanto, isto seria meio catastrófico na questão da conjugação verbal. Aliás, que verbo corresponderia a este substantivo?
Talvez seja mesmo melhor que os pentimentos fiquem no reino do improvável, das ditas quimeras, onde podemos ir quando os outros estão imersos em seus pensamentos, ou ocupados com suas sérias realidades.

E sobre a arte? (do Livro do Desassossego)




A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos ― vis porque são nossos e vis porque são vis.

O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.

O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.

Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso ― o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objetivo.

Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.


Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego

Esse texto tem começo incerto e não sei se tem fim


Encontrei Esse vídeo no youtube, e foi feito a partir de cenas do filme "Wings of Desire", "Asas do Desejo" de Win Wenders, rodado em 1987, que trata das desventuras de dois anjos na Berlim Ocidental. A música é "Pyramid Song" De Radiohead. "Pyramid Song" foi o primeiro single de Radiohead em três anos de trabalho; faz parte do álbum "Amnesiac", de 2001. Tem em comum com o filme de Wenders o fato de tratar das relações entre homens e anjos.

Radiohead é ótimo, só não ouço mais porque é por demais melancólico - e já sou eu mesma melancólica o suficiente. Enfim, essa música é mega melancólica, e combina muito com as cenas do filme, que é, obviamente, melancólico.

O filme explora a estranheza da ideia de os anjos poderem interferir na vida das pessoas, até que um deles se apaixona por uma "mortal", e decide também tornar-se humano. Nem vou me estender muito mais, porque certamente iria incorrer em dar spoilers. A sequência de "Asas do Desejo" foi "Tão Longe, Tão Perto", de 1993, que trata dos anjos, observando a vida dos cidadãos de uma Berlim agora unificada.

Engraçado como o filme "Asas do Desejo" fala a mim (ou falou, porque outro dia fui assistir e não fui adiante). E como este filme foi marcante também para outras pessoas que são ou foram importantes nesta minha vidazinha. Foi meio impactante. Nem lembro direito se assiti a ele no cinema, creio que sim, e espero que sim, porque é realmente outra experiência. Filmes que assisti no cinema que me marcaram bastante: O tambor, O Homem Elefante, Hair. Tem outros, não lembro agora.




O que fazemos (com o que querem fazer de nós)

 O mundo pede e oferece #satisfaçãoimediata de nossos desejos.Somos condicionados a querer isto. E, obvio, só conseguimos um grande vazio e mais e mais desejos.

É adequado, para que se mantenha o sistema azeitado, as vendas fervilhantes. E isto se estende aos relacionamentos. São a cada dia mais voláteis, "amores líquidos", como disserta Zigmunt Bauman no livro de mesmo nome.

Não há pessoa que consiga a dose necessária de cinismo pra ser de fato "feliz" - se é que se pode usar o termo - em tempos assim. Porque sempre há dolo em se usar o outro, e em ser usado, e descartado. Há que se passar por uma completa reformulação, política, estrutural, etc. etc. et coetera pra dar conta de nos aproximarmos minimamente do que nos trás algum alento, talvez a tal da felicidade. Ou que se praticar isto em termos "minimalistas", abrindo mão e dizendo não a tanta coisa por aí que se afirma ser imprescindível, e que não é. 

E podemos, (podemos ?).


                                                (foto tirada por mim em 2015)


Por ser humano


 "O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponte e não um fim: o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um ocaso." - Nietzsche

Mas... Nem sei porque, mas isso, ou talvez e certamente o título, me remete imediatamente a:



 

Mudança(s) e pseudo-desapegos

 Estou me desfazendo Acabei de me desfazer do meu outro blog, o Arteetcetal, e trazendo os posts que considero mais significativos para cá. Daí que vão surgir do nada várias postagens  em poucos dias hoje.

Não é um delírio criativo, é só reaproveitamento.

A sensação é: Porque não fiz isso antes? Jão não fazia sentido ter 2 blogs que eu não escrevia e que ninguém lia... Pelo menos agora é só um.



Motivo


Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

CECÍLIA MEIRELES

Sísifos, deuses e nós

 Sísifo era um sujeito (um rei, e bem atrevido prepotente, como pessoas que detém o poder costumam ser) que ofendeu gravemente os deuses gregos e, não sei se vocês sabem, eles nunca deixam barato. Pra dar uma lição no Sísifo, condenaram ele a rolar uma grande pedra acima de um grande monte. E, como as vinganças dos deuses gregos eram muito bem urdidas, essa pedra, sempre, quando chegava no alto do monte, rolava pra baixo e assim ia, indefinidamente. (Um dia ia acabar, porque Sísifo não era imortal, mas, tirando isso, foi um castigo tão sem sentido quanto severo, que com certeza intimidou muitos humanos da época.) Qual foi o erro de Sísifo? Ele tentou enganar a Morte e Hades, o deus do submundo, perturbando a ordem cósmica, só isso.

                                                                        Sisifo, de Tiziano Vecellio, 1548-1549.

Mas apesar de estarmos vivendo um momento onde o que se vê são dirigentes prepotentes e insanos empurrando o mundo para um conflito cada vez mais amplo e que pode ter proporções inimagináveis, o texto não é só é sobre isso.

(O macro e o micro.)

É também sobre disputa de egos a nível pessoal, e é também sobre micro fissuras internas que teimam em reabrir. É também sobre a inutilidade de certas ações e o quanto somos Sísifos e nossos próprios deuses travando lutas intermináveis e inúteis todos os dias e a falta de sentido disso.  E se é preciso haver algum sentido. Ou é só o fluir das coisas. O fruir das coisas, ruins e boas. E o uso do E, ao invés do OU foi intencional. E o metabolizar, o transformar o metamorfosear-se, se for preciso. 

Reizinhos prepotentes desafiam deuses inexistentes, ou existentes, sem pensar em nada além de seus intere$$es, manutenção de poder, a vida não vale um cêntimo. Vida humana mesmo, a animal e vegetal já não importava nada faz tempo.  

(O macro e o micro.)

Reproduzimos conflitos e relações de poder entre nós e os nossos, e entre os seres que nos rodeiam, num ciclo indefinido e infinito enquanto durar. Somos tão  desumanos quanto os Sísifos contemporâneos. Ou talvez sejamos deuses.

Quando comecei a escrever, realmente não pretendia ir por esse caminho, minha ideia era bem diferente, embora igualmente soturna. Mas parece que ao escrever tudo foi se encaminhando para o que se deu aqui, e que também representa o que venho pensando e maturando. 

[Fiquei pensando sobre essa tal de ordem cósmica (pesquisei, porque tinha esquecido detalhes do mito). E se existir uma ordem cósmica? Supostamente deve existir, porque o universo tem resistido bravamente à presença do homem na Terra. Daí lembrei da música do Raul Seixas, de que nós somos a pulga do cachorro, e que basta ele se sacudir que a pulga some e o cachorro continua... Quam somos nós na ordem das coisas?]