(estudo de Michelângelo)
(estudo de Michelângelo)A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos ― vis porque são nossos e vis porque são vis.
O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.
O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso ― o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objetivo.
Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.
Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego
Encontrei Esse vídeo no youtube, e foi feito a partir de cenas do filme "Wings of Desire", "Asas do Desejo" de Win Wenders, rodado em 1987, que trata das desventuras de dois anjos na Berlim Ocidental. A música é "Pyramid Song" De Radiohead. "Pyramid Song" foi o primeiro single de Radiohead em três anos de trabalho; faz parte do álbum "Amnesiac", de 2001. Tem em comum com o filme de Wenders o fato de tratar das relações entre homens e anjos.
Radiohead é ótimo, só não ouço mais porque é por demais melancólico - e já sou eu mesma melancólica o suficiente. Enfim, essa música é mega melancólica, e combina muito com as cenas do filme, que é, obviamente, melancólico.
O filme explora a estranheza da ideia de os anjos poderem interferir na vida das pessoas, até que um deles se apaixona por uma "mortal", e decide também tornar-se humano. Nem vou me estender muito mais, porque certamente iria incorrer em dar spoilers. A sequência de "Asas do Desejo" foi "Tão Longe, Tão Perto", de 1993, que trata dos anjos, observando a vida dos cidadãos de uma Berlim agora unificada.
Engraçado como o filme "Asas do Desejo" fala a mim (ou falou, porque outro dia fui assistir e não fui adiante). E como este filme foi marcante também para outras pessoas que são ou foram importantes nesta minha vidazinha. Foi meio impactante. Nem lembro direito se assiti a ele no cinema, creio que sim, e espero que sim, porque é realmente outra experiência. Filmes que assisti no cinema que me marcaram bastante: O tambor, O Homem Elefante, Hair. Tem outros, não lembro agora.
O mundo pede e oferece #satisfaçãoimediata de nossos desejos.Somos condicionados a querer isto. E, obvio, só conseguimos um grande vazio e mais e mais desejos.
É adequado, para que se mantenha o sistema azeitado, as vendas fervilhantes. E isto se estende aos relacionamentos. São a cada dia mais voláteis, "amores líquidos", como disserta Zigmunt Bauman no livro de mesmo nome.
Não há pessoa que consiga a dose necessária de cinismo pra ser de fato "feliz" - se é que se pode usar o termo - em tempos assim. Porque sempre há dolo em se usar o outro, e em ser usado, e descartado. Há que se passar por uma completa reformulação, política, estrutural, etc. etc. et coetera pra dar conta de nos aproximarmos minimamente do que nos trás algum alento, talvez a tal da felicidade. Ou que se praticar isto em termos "minimalistas", abrindo mão e dizendo não a tanta coisa por aí que se afirma ser imprescindível, e que não é.
E podemos, (podemos ?).
"O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponte e não um fim: o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um ocaso." - Nietzsche
Mas... Nem sei porque, mas isso, ou talvez e certamente o título, me remete imediatamente a:
Estou me desfazendo Acabei de me desfazer do meu outro blog, o Arteetcetal, e trazendo os posts que considero mais significativos para cá. Daí que vão surgir do nada várias postagens em poucos dias hoje.
Não é um delírio criativo, é só reaproveitamento.
A sensação é: Porque não fiz isso antes? Jão não fazia sentido ter 2 blogs que eu não escrevia e que ninguém lia... Pelo menos agora é só um.
Sísifo era um sujeito (um rei, e bem atrevido prepotente, como pessoas que detém o poder costumam ser) que ofendeu gravemente os deuses gregos e, não sei se vocês sabem, eles nunca deixam barato. Pra dar uma lição no Sísifo, condenaram ele a rolar uma grande pedra acima de um grande monte. E, como as vinganças dos deuses gregos eram muito bem urdidas, essa pedra, sempre, quando chegava no alto do monte, rolava pra baixo e assim ia, indefinidamente. (Um dia ia acabar, porque Sísifo não era imortal, mas, tirando isso, foi um castigo tão sem sentido quanto severo, que com certeza intimidou muitos humanos da época.) Qual foi o erro de Sísifo? Ele tentou enganar a Morte e Hades, o deus do submundo, perturbando a ordem cósmica, só isso.
Sisifo, de Tiziano Vecellio, 1548-1549.Mas apesar de estarmos vivendo um momento onde o que se vê são dirigentes prepotentes e insanos empurrando o mundo para um conflito cada vez mais amplo e que pode ter proporções inimagináveis, o texto não é só é sobre isso.
(O macro e o micro.)
É também sobre disputa de egos a nível pessoal, e é também sobre micro fissuras internas que teimam em reabrir. É também sobre a inutilidade de certas ações e o quanto somos Sísifos e nossos próprios deuses travando lutas intermináveis e inúteis todos os dias e a falta de sentido disso. E se é preciso haver algum sentido. Ou é só o fluir das coisas. O fruir das coisas, ruins e boas. E o uso do E, ao invés do OU foi intencional. E o metabolizar, o transformar o metamorfosear-se, se for preciso.
Reizinhos prepotentes desafiam deuses inexistentes, ou existentes, sem pensar em nada além de seus intere$$es, manutenção de poder, a vida não vale um cêntimo. Vida humana mesmo, a animal e vegetal já não importava nada faz tempo.
(O macro e o micro.)
Reproduzimos conflitos e relações de poder entre nós e os nossos, e entre os seres que nos rodeiam, num ciclo indefinido e infinito enquanto durar. Somos tão desumanos quanto os Sísifos contemporâneos. Ou talvez sejamos deuses.
Quando comecei a escrever, realmente não pretendia ir por esse caminho, minha ideia era bem diferente, embora igualmente soturna. Mas parece que ao escrever tudo foi se encaminhando para o que se deu aqui, e que também representa o que venho pensando e maturando.
[Fiquei pensando sobre essa tal de ordem cósmica (pesquisei, porque tinha esquecido detalhes do mito). E se existir uma ordem cósmica? Supostamente deve existir, porque o universo tem resistido bravamente à presença do homem na Terra. Daí lembrei da música do Raul Seixas, de que nós somos a pulga do cachorro, e que basta ele se sacudir que a pulga some e o cachorro continua... Quam somos nós na ordem das coisas?]